Friday, February 02, 2007

Nos confins da minha infância, eu tinha uma amiga. Desde meus 6 ou 7 anos, era uma garota que morava no quarteirão debaixo da minha casa, e toda lembrança daquela época invariavelmente envolve a tal menina. Ela era loirinha e invocada, e todo dia, depois da novela da 7, ela vinha me chamar no meu portão e a gente descia pra encontras as outras crianças e brincar até as 9:40 da noite, porque esse era meu horário de voltar pra casa.
Então, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, um dia ela veio pedir emprestado meu Jogo da Vida pra brincar com os primos dela. O diálogo se deu mais ou menos assim:
"Oi Ju, você pode me emprestar seu Jogo da Vida pra eu brincar com meus primos?"
"Tudo bem, mas tá faltando um monte dos pininhos de colocar nos carrinhos"
Pausa
"Se você não quer emprestar, é só falar!"
"Ah, vai pro inferno, menina!"
E BUM! Eu bati a porta na cara dela. Essa foi a última vez que eu conversei com ela! Nós entramos em uma disputa clássica de pessoas maduras de 12 anos de quem ia pedir desculpas primeiro. Certamente não seria eu, porque eu estava certa! E ela também decidiu que eu era egoísta e maluca.
A rua se dividiu. As pessoas foram obrigadas a escolher um "lado", praticamente vestindo camisetas "Time Ju" ou "Time Kátia". Meses se passaram.
Algumas meninas ( mas não ela) bateram no meu portão e disseram que aquilo era ridículo. Realmente, eu concordei, aquilo era ridículo e vocês estão mais que convidadas a voltar ao meu exclusivo círculo de amizades, mas enquanto ela não vier falar comigo, nada feito.
Anos se passaram.
Sim, ANOS!
A gente simplesmente se ignorava, o que gerou situações bizarras como eu e ela na casa de uma amiga, a meio metro de distância uma da outra, simplesmente fingindo que a outra não estava lá.
Aí a mãe dela teve um derrame. Eu não sabia o que fazer. Já tinha uns 15 anos e estava plenamente consciente de como tudo aquilo era imbecil, mas jamais passou pela minha cabeça bater na casa dela e perguntar como tudo tava indo. Eu usava minha mãe de espiã; ela ia até lá, só pra checar e depois vinha me contar.
Aí eu fiquei sabendo que tava de mudança pra Belém. Eu sabia que nunca mais veria a menina na minha frente, e de repente, como se minha idade mental tivesse ido de 8 para 45 em questão de segundos, no Natal, eu comprei um cartão, daqueles que toca musiquinha e na época era super novidade, escrevi "Feliz Natal" dentro e coloquei no correio. Mantenha em mente que eu e ela morávamos a UM QUARTEIRÃO uma da outra, mas eu coloquei no correio mesmo assim.
Saí de viagem no fim do ano e quando eu voltei, tinha um cartão dela na minha caixa de correio.
"Boa sorte com tudo!"
A gente trocou algumas cartas depois disso, mas era estranho: ela tinha a vidinha adolescente dela e a época dos meus 12 aos 15 anos foi de verdadeira transformação em nerd inserção na vida de sexo, drogas e rock'n'roll, então ficou tudo diferente demais.
E a razão desse post é que hoje eu li o nome dela em um site qualquer e descobri que eu não lembro mais da menina: não lembro mais da cara dela, não lembro do sobrenome, não lembro de nada! Eu sei que ela existiu e toda vez que eu volto pra lá pra visitar amigas, eu pergunto dela. Ela tá bem, casou, tá trabalhando e tudo mais, se vocês querem saber...
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Hoje eu fui trabalhar de calça jeans! wheeeeeeee!

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